Uma reflexão para o Dia de Finados
Por Felipe Badotti.
Há uma contradição silenciosa em nossa existência: sabemos que vamos morrer, mas vivemos como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
Adiamos encontros, conversas, perdões e abraços. Preenchemos os dias com urgências que logo esquecemos e deixamos para depois aquilo que, um dia, mais desejaremos ter vivido.
A morte é a única certeza da vida e, talvez, a conversa que mais evitamos. A verdade é que talvez devêssemos visitar mais vezes a consciência da nossa finitude, para não precisar visitar o arrependimento.
Semana passada, em uma palestra durante a convenção da National Funeral Directors Association (NFDA), nos Estados Unidos, ouvi uma pergunta desconcertante. Uma pessoa que vive aproximadamente 78 anos terá cerca de 28 mil dias de vida. Mas de quantos desses dias realmente se lembrará?
Quantos passaram no piloto automático? Quantos guardam um rosto, uma conversa, uma alegria que ainda nos acompanha? Não é apenas o tempo que vivemos que conta. É a vida que colocamos dentro do tempo.
Há profissões que cuidam da vida. E há uma profissão que, quando a vida termina, continua cuidando do amor. Há mais de duas décadas, meu trabalho me aproxima de uma realidade da qual quase todos preferem se afastar.
Conviver com a morte não torna a perda mais simples. Mas nos ensina a enxergar, nas despedidas, aquilo que a pressa costuma esconder.
Cada cerimônia reúne muito mais do que tristeza. Ali estão histórias inteiras, amores que atravessaram anos, palavras que foram ditas e outras que já não mais poderão ser. Às vezes, um silêncio carrega mais significado do que qualquer discurso.
Diante da morte, o que parecia urgente perde importância; o que parecia pequeno se torna imenso.
Um café em família, um abraço demorado, uma conversa sem olhar para o relógio. São coisas tão comuns que quase não percebemos sua grandeza, até o dia em que deixam de ser possíveis, até o dia em que se vê uma cadeira vazia.
Há uma beleza difícil de explicar no trabalho funerário. Não na perda, mas no cuidado: honrar quem partiu, amparar quem fica, proteger a dignidade de uma última despedida. Quando já não podemos mudar o desfecho de uma vida, ainda podemos cuidar da maneira como ela será lembrada.
No Dia de Finados, muitas pessoas levam flores, fazem uma oração ou permanecem em silêncio diante de um túmulo. O que, à primeira vista, parece um encontro com a ausência, talvez seja também um reencontro com tudo aquilo que permanece.
Nossos mortos continuam presentes em muito mais do que pensamos. Eles continuam presentes nos gestos que herdamos, nos ensinamentos que repetimos, nas receitas de família, nas histórias contadas aos filhos e nas palavras que ainda ouvimos dentro de nós.
Algumas pessoas deixam de caminhar conosco, mas jamais deixam de fazer parte de quem somos.
A morte encerra uma vida. Não encerra o amor que aquela vida despertou.
Por isso, um cemitério é mais do que um lugar de sepultamento. É um lugar onde a memória encontra espaço, onde os vivos visitam sua própria história e onde a saudade ganha um gesto concreto.
Sentimos falta de quem partiu porque o amor continua aqui, mesmo quando a presença já não está. Recordar, nesse sentido, é uma forma de continuar amando.
A consciência da finitude não precisa nos entristecer. Pode, ao contrário, nos despertar. O limite do tempo é justamente o que torna cada encontro irrepetível.
Não precisamos esperar a ausência para reconhecer o valor de uma presença.
Talvez a melhor homenagem a quem já partiu seja viver de modo mais atento com quem permanece. Trocar uma disputa inútil pela consciência de estar certo e deixar o outro vencer a discussão. Fazer a visita adiada. Dizer “eu te amo” sem esperar uma ocasião especial. Estar verdadeiramente presente.
Neste Dia de Finados, que a lembrança dos que amamos nos convide a uma escolha: não apenas lamentar os dias que terminaram, mas valorizar os dias que ainda temos.
Um dia, também seremos lembrança na vida de alguém. Que nossa maior herança não seja o que acumulamos, mas o amor que deixamos.
A morte é inevitável. Mas passar pela vida sem realmente vivê-la não deveria ser.
